Sexta-feira, 13 de Julho de 2012

A Islândia é um caso muito interessante e uma experiência económica real que devia ser mais conhecida - não o é por razões óbvias: a Islândia fez tudo aquilo que não era suposto contrariando o poder económico instalado.

A Islândia não salvou os seus bancos, declarou default nas dívidas dos bancos ao exterior e apenas garantiu os depósitos domésticos, disse não à austeridade, desvalorizou fortemente a sua moeda, e (mesmo assim) recebeu um empréstimo do FMI tal como Portugal, Grécia, Irlanda e Espanha.

De referir que a Islândia foi dos primeiros países a ser afectado pela crise e a dimensão foi astronómica.

Os três maiores bancos da Islândia tinham uma dívida ao exterior de cerca de 50 mil milhões de euros, quase 600% do PIB.

Até que a bolha do sector bancário, criada à custa da total desregulação do sector, acabou mesmo por rebentar entre finais de 2007 e 2008. 

O gráfico abaixo mostra a evolução do índice bolsista islândes que ajuda a perceber a dimensão do problema.

Evolução do índice bolsista da Islândia OMX15

File:OMXI15.jpg

 

É claro que a crise na Islândia tinha todas as condições para ser muito mais severa do que a crise em Portugal - e foi, mas já deixou de ser. O PIB caiu drasticamente na Islândia em 2009 e 2010, enquanto que em Portugal a recessão de 2009 foi logo seguida de crescimento económico em 2010.

O problema surge depois, numa altura em que a Islândia começa a recuperar assente na desvalorização cambial e acompanhada por um empréstimo do FMI que assentava essencialmente em medidas de reestruturação do sector bancário, Portugal e o resto da Europa, viraram a sua atenção para os défices públicos, a austeridade passou a liderar as políticas económicas na Europa e mesmo nos EUA - os resultados estão à vista.

Depois de uma queda muita mais acentuada, a economia da Islândia já terá ultrapassado Portugal em termos de recuperação económica face a 2008. De referir ainda que enquanto as previsões para Portugal têm sido revistas sucessivamente em baixa, a Islândia têm constantemente superado as metas e estas previsões podem pecar por pessimistas (por exemplo: actualmente espera-se que a economia islandesa cresça 2,8% este ano e a estimativa do gráfico é de apenas 2,4%).

 

 

E outro dado interessante é a evolução da inflação. É uma boa referência para quem teme que em Portugal a saída do euro e respectiva desvalorização do escudo estimada em cerca de 30/40% resulte numa subida de preços e numa perda de poder de compra também de 30/40%. A moeda islandesa desvalorizou mais de 55% entre Julho de 2007 e Novembro de 2008 (portanto bem mais do que os 30/40% esperados para Portugal) e a sua taxa de inflação apenas foi anormalmente elevada em 2008 e 2009, e foi apenas de 12,4% e 12%. 

 

 

Sim, a Islândia é uma ilha gelada no meio do Atlântico e uma economia muito pequena e algo particular. Mas não nos podemos esquecer que a Islândia é também um país desenvolvido que estava a caminho de entrar para a União Europeia. As lições a tirar deste caso de estudo deviam ser definitivamente mais faladas e valorizadas.

 



publicado por Mais Um Economista às 12:08 | link do post | comentar

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