Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Vou começar este post exactamente onde acabei o outro, no petróleo e nas importações. Como sabemos, o petróleo faz parte de um conjunto de coisas importantes que Portugal não produz, ou que não produz o suficiente para satisfazer as suas necessidades. E essas coisas importantes, caso Portugal saia do euro, vão sofrer aumentos de preço consideráveis em consequência da expectável desvalorização do escudo (ou de outra qualquer nova moeda de Portugal).
Para termos uma ideia do que estamos a falar, o gráfico abaixo mostra as actividades económicas com o maior peso nas importações portuguesas de bens em 2011. Como podemos ver, o petróleo e o gás natural representam quase 13% das importações nacionais de bens, a fabricação de produtos químicos (onde se incluem os produtos farmacêuticos) 13,6%, seguidos das indústrias alimentares e da fabricação de veículos automóveis com cerca de 10% cada.

 

Feita esta pequena introdução, então que consequências teria a desvalorização cambial nas importações e na economia?

Vou excluir desde já da minha análise coisas como os veículos automóveis, que não serão, a meu ver, um problema para a recuperação da economia portuguesa, pelo menos a curto prazo.

Portanto, em suma, as coisas que realmente seriam cruciais para uma recuperação sustentável e saudável da economia são os produtos energéticos (petróleo, gás natural e outros), os produtos alimentares e os produtos farmacêuticos. Penso que é unânime. Estas coisas são cruciais essencialmente na medida em são indispensáveis e insubstituíveis, e que a sua escassez poderia comprometer seriamente a estabilidade social do país e a recuperação económica a vários níveis.

No entanto, e apesar de concordar que as importações destas coisas seriam um dos problemas principais da saída do euro, tenho de fazer uma ressalva para alguns aspectos que tendem a ser ignorados.

Em primeiro lugar, os preços destas coisas e mesmo o preço de praticamente tudo o que é importado não aumentaria tanto quanto se pensa - e com isto não quero dizer que aumentaria pouco. Não se pode dizer é que se escudo desvalorizar, vamos supor, 40%, os preços do café aumentam 40%. Isto porque, como sabemos, quando alguém compra um café não está só a pagar o grão de café que foi importado, está também a pagar parte do salário do empregado que lhe serviu o café, do salário do patrão do estabelecimento, da renda do estabelecimento, do salário do distribuidor, e por aí fora. E destes componentes todos do preço do café, o único que aumentaria 40% é o grão de café. Os outros, pelo menos no curto prazo, permaneceriam fixos, o que resultaria num aumento do preço do café bem mais baixo do que os 40%.

Em segundo lugar, em muitos produtos, senão todos, o Estado poderia intervir por forma a conter a subida dos preços. Como todos sabemos, até há relativamente pouco tempo o preço dos combustíveis era fixado por lei, algo que pode bem voltar a ser feito. E o preço dos medicamentos é ainda hoje fixado por lei, logo o Estado pode intervir para limitar ou mesmo anular quaisquer subidas de preço nos produtos farmacêuticos. Mais, o Estado pode sempre baixar os impostos sobre o consumo, nomeadamente o IVA e o Imposto sobre Produtos Petrolíferos.

Por fim, devemos ter em conta o aumento da produção nacional que venha a substituir importações - que foi o principal motor da recuperação da economia Argentina. No petróleo e gás natural pouco há a fazer - excepto a aposta nas energias renováveis - mas os produtos alimentares serão um mar de oportunidades. Muitas novas indústrias voltarão a ser competitivas porque os preços internacionais aumentam, muitos terrenos agrícolas voltarão a ser cultivados por previsível suspensão da ridícula PAC e muitos pescadores nacionais voltarão ao mar por previsível suspensão das ridículas limitações comunitárias.  

Espero ter dissipado algumas das preocupações da saída do euro no que se refere a importações. No entanto, tenho que deixar claro que este seria um aspecto crucial e que, apesar do que expus, os preços aumentariam mesmo. Podem é aumentar mais ou menos consoante diversos factores e um deles, que considero muito importante, é a gestão da situação por parte do Governo.

Acredito mesmo que o ponto crucial para o sucesso da saída do euro não seria tanto o preço das importações mas sim a capacidade de gestão do Governo (ou a falta dela). Coloco assim este ponto à cabeça porque apesar da situação ser muito complicada de gerir, considero que é possível fazê-lo. O maior problema, penso eu, é que a classe política do nosso país, muito provavelmente, não estaria à altura de tamanho desafio.

 



publicado por Mais Um Economista às 10:36 | link do post | comentar

6 comentários:
De escudo-cplp a 2 de Junho de 2012 às 12:44
Para produtos de luxo e maquinaria especializada (sem concorrência)o preço manter-se-ia na exportação em dólares/euros (os preços para exportação são sempre conhecidos numa moeda internacional e não na nacional). A grande maioria dos produtos que importamos para Angola por exemplo não teriam alteração de preços e visto termos uma balança comercial positiva com Angola ficariamos na verdade com petróleo em desconto, ou não é assim?
Com o escudo o valor das exportações aumentaria para produtos de luxo e teria a possibilidade de baixarem o preço de acordo com a competição internacional.
Se uma cove custar 1€ - 200$00 há uma desvalorização de 20% ela continua a 200$00 valendo agora 0,80€, contudo se ela é vendida internacionalmente a 0,90€ não fará sentido vende-la a 0.8o€.


De Mais Um Economista a 4 de Junho de 2012 às 16:22
Mesmo em relação a Angola é expectável que o escudo desvaloriza-se. E o petróleo é sempre cotado em Dólares portanto não teríamos "petróleo a desconto".
Quanto às exportações de luxo, sim, a desvalorização do escudo significaria um preço atractivo para os mercados internacionais. O seu exemplo da couve ilustra o que aconteceria ao preço dos produtos portugueses - um forte incentivo para o aumento das exportações nacionais.


De escudo-cplp a 2 de Junho de 2012 às 03:49
Porquê 40% de desvalorização?


De Mais Um Economista a 4 de Junho de 2012 às 16:14
É apenas a título de exemplo. Alguns estudos apontam para uma desvalorizações na ordem dos 25/30%. No entanto é um pouco difícil de prever qual seria, de facto, a desvalorização do escudo, até porque depende de diversos factores como a intervenção dos Bancos Centrais Europeu e Português.


De Francisco Napoleao a 2 de Junho de 2012 às 03:27
Olá...
Fale sobre a desvalorização do escudo. Porque é que ela aconteceria onde e por quem.
Comparar Portugal e Argentina é muito interessante. Contudo em termos de praticabilidade saber como se processa a desvalorização é muito mais interessante especialmente com as seguintes condicionantes: O euro mantém-se ou não como moeda interbancária, o escudo será moeda forte ou fraca. Seria possível ter uma moeda forte com um padrão-ouro &prata? Seria possivel com restrinções muito rigorosas de emissão de moeda manter a moeda forte. Haveria quebra das exportações para a UE? e se tal acontecesse seriam elas compensadas com as exportações para o resto do mundo? Se as exportações para o espaço CPLP (com Angola, Brasil, Guiné e Timor produtores de petróleo e Portugal talvez de gás natural) aumentarem a 25% seria comensurável pensar num escudo-cplp?


De Mais Um Economista a 4 de Junho de 2012 às 16:11
Caro Francisco,
O escudo iria desvalorizar porque é exactamente para isso que Portugal sairia do euro. O objectivo de sair do euro é puder desvalorizar a moeda e como tal isso aconteceria pelo simples funcionamento do mercado. A haver necessidade de intervenção da parte do Banco Central esta seria no sentido de limitar a desvalorização do escudo. De forma mais simples: a opção sair do euro centra-se na possibilidade de desvalorizar a moeda, logo, quando o escudo for criado, as expectativas serão de que se desvalorize e isso fará com que as pessoas não queiram ter escudos (porque sabem que "amanha" o escudo valerá menos do que "hoje"). No limite podemos ter o chamado overshooting , ou seja, o escudo acaba por desvalorizar mais do que "devia" e aí o Banco Central pode desempenhar um papel importante.
Vou incluir esta e as suas outras perguntas no FAQ.Economia e tentar responder a todas assim que possa.


Comentar post

Posts recentes

Previsões, revisões, desi...

O Reestruturador

Há recessões e Recessões

O Mundo ao Contrário

Novas previsões do FMI

Reestruturar, Reestrutura...

Pagar para Emprestar Dinh...

A Mal Comportada Islândia

A Desvalorização Cambial ...

Wolfson Economics Prize

Mais Um Economista

Subscreva para receber os posts no seu email

Posts mais comentados
comentários recentes
Apesar de ser expectável que as previsões não este...
Não era de esperar que as previsões falhassem?
"O que está em causa não é o tamanho exagerado do ...
Este homem é tão burro!
subscrever feeds
Outubro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


Tags

todas as tags

links
arquivos

Outubro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012