Terça-feira, 5 de Junho de 2012

Fala-se sobre a desvalorização do escudo. Porque é que ela aconteceria?

O escudo iria desvalorizar porque é exactamente para isso que Portugal sairia do euro. A necessidade de Portugal sair do euro prende-se precisamente na necessidade de desvalorizar a sua moeda e, como tal, isso aconteceria pelo simples funcionamento do mercado. 

 

Voltando um pouco atrás para tentar tornar isto mais claro.

A entrada de Portugal no euro resultou na acumulação, ano após ano, de défices externos elevados e, consequentemente, vimos a sua dívida externa aumentar brutalmente. Estes défices são fruto inegável da entrada de Portugal no euro na medida em que esta adesão originou uma grande e irracional diminuição dos custos de financiamento, para além do facto de Portugal ter passado a ter uma moeda forte e controlada por terceiros.

Ora, é certo que estes défices podiam ter continuado a existir e a dívida podia ter continuado a aumentar desde que o exterior continuasse disposto a emprestar-nos o dinheiro. Mas por diversas razões entre as quais a crise que começou em 2007/2008, o exterior deixou de querer emprestar a Portugal, o efeito do euro evaporou-se e os custos de financiamento, que tinham caído brutalmente com a adesão ao euro, começaram a aumentar também brutalmente.

Portanto, teoricamente só nos resta uma outra solução: eliminar os défices externos e começar a diminuir a dívida externa.

(Notem que quando me refiro a Portugal não me estou a referir só ao Estado, estes défices externos e a dívida externa são de todos: Estado, Bancos, Empresas e Famílias. E já agora, quando falo em externo e exterior refiro-me também a tudo que não reside em Portugal e que consiste também de Estados, Bancos, Empresas e Famílias.)

Então mas como é que eliminamos os défices externos?

Não há volta a dar, temos de aumentar as exportações e/ou diminuir as importações. E há (ou havia) duas formas de o fazer, uma mais díficil e outra mais fácil. A mais difícil é a que estamos a tentar agora, chamada "desvalorização interna". A outra, a mais fácil e a que foi usada por Portugal durante vários anos é a chamada "desvalorização cambial", que como sabemos, foi uma "arma" que deitámos fora ao entrar no euro.

Mas o que é exactamente uma desvalorização? E para que serve? E o que são a desvalorização cambial e a desvalorização interna? 

Uma desvalorização consiste pura e simplesmente em baixar o valor de tudo o que é doméstico, ou seja, produzido dentro do país. Significa portanto baixar o preço dos produtos nacionais quando comparados com os preços internacionais, logo tornar o país mais competitivo. Isto por um lado vai potenciar o aumento das exportações e, por outro, vai potenciar a substituição de importações por produtos nacionais.

E como já disse, podemos desvalorizar uma economia de duas formas, "internamente" e "cambialmente". Vamos usar o caso Português para ilustrar as duas.

Imagine que estamos em 1990 e que o nosso défice externo estava a aumentar para níveis indesejados, como acontece hoje, ou seja, temos de promover as exportações e desincentivar as importações. Como estamos em 1990, temos o escudo, e o Banco de Portugal o que faria era "imprimir escudos". E "imprimir escudos" não é mais do que dizer que cada escudo passa a valer menos, ou seja, desvaloriza o escudo face às outras moedas. E o simples facto do escudo desvalorizar é suficiente para automaticamente os nossos preços (que estão em escudos) ficarem mais baixos face aos preços no exterior (que estão em £, $, etc.), logo potenciar as exportações, desincentivar as importações,  etc... - isto é a chamada desvalorização cambial.

Mas estando em 2012, Portugal não tem moeda própria e, como tal, não pode fazer uma desvalorização cambial. Portanto a única forma de desvalorizar a economia é reduzir os salários e por essa via baixar os preços, potenciar as exportações, etc... - isto é a chamada desvalorização interna e é o que Portugal está a fazer (ou pelo menos a tentar).

 

Por fim, e respondendo novamente à questão inicial, a hipótese de sair do euro culminaria na desvalorização do escudo mas por mecanismos diferentes daqueles de 1990. Se Portugal voltar mesmo ao escudo, ninguém terá de intervir directamente para que o escudo desvalorize. Tal vai acontecer pelo natural funcionamento do mercado porque é mesmo para desvalorizar a economia portuguesa que o escudo será criado; e esse facto fará com que, pelo menos no curto prazo, ninguém queira ter escudos, e ninguém querer ter escudos significa que o "preço" do escudo desce, ou seja que o escudo desvaloriza. No limite, a haver intervenção da parte do Banco de Portugal, será para garantir que o escudo não desvaloriza demasiado (um efeito overshooting é expectável).

 

PS: A desvalorização interna tem vários problemas e limitações, e, muito honestamente, não está a funcionar assim muito bem. Vou ver se arranjo tempo para escrever sobre isto e mostrar alguns dados.

 

Mais FAQ.Economia - Deixem comentários com o que gostariam de ver discutido.

 



publicado por Mais Um Economista às 17:26 | link do post | comentar

7 comentários:
De escudo-cplp a 8 de Junho de 2012 às 23:09
Excelente postigo. Gostava de te perguntar quanto à questão das exportações de serviço, turismo claro? Não ando nada convencido com a produtividade da industria do turismo, e estou em crer que manter as pessoas na produção de bens transaccionáveis deixa mais riqueza no país que os serviços. Já quanto aos serviços da educação e saúde tenho outra opinião.

Gostava de contrapor a tua ideia. "ninguém queira ter escudos" Quem quer ter outra coisa que escudos para que os quer? Para comprar produtos estrangeiros ou não será?


De Mais Um Economista a 9 de Junho de 2012 às 15:46
Caro escudo-cplp,
Eu dou importância ao Turismo porque é um sector consolidado e muito significativo em Portugal e que beneficiaria imediatamente da saída do euro. Mas concordo consigo, a produção de bens transaccionáveis iria renascer com a saída do euro e é um sector importantíssimo para o crescimento económico sustentável do nosso país.

Quando à questão de ninguém querer ter escudos. É claro que isto não se aplica à grande maioria da população portuguesa que terá sempre de ter escudos para os seus gastos diários e que nem terá capacidade para ter uma conta em euros fora de Portugal. Mas repare que do ponto de vista de um investidor que tenha outra moeda que não escudos, ele sabe que o escudo terá de desvalorizar para que Portugal recupere a competitividade, portanto ele sabe que se esperar mais "um dia" para investir, o escudo desvaloriza mais um pouco e o investimento fica-lhe "mais barato". Isto gera um tipo de self fulfilling prophecy e o escudo desvaloriza por si só, pelo menos no curto prazo. E, tal como refere, teremos também quem não queira ter escudos porque o desvalorizar do escudo torna os produtos estrangeiros mais caros.
Isto seria certamente um "jogo" que o Banco de Portugal e o Governo teriam de saber gerir muito bem para manter o escudo no valor que mais beneficiaria a recuperação económica.


De escudo-cplp a 9 de Junho de 2012 às 21:17
Mas quem tivesse dinheiro no banco deveria de certeza ser acarinhado com elevadas taxas de juro, ou nao seria assim


De Mais Um Economista a 9 de Junho de 2012 às 22:12
Possivelmente. Tudo iria depender da reacção da população portuguesa, e uma possível corrida aos bancos teria de ser tida em conta e correctamente controlada.


De Pedro Leao a 2 de Julho de 2012 às 13:22
Deixe-me so por-lhe esta questao...a desvalorizacao cambial...
Imaginando que saimos do euro e re-adoptamos o escudo, que sera uma moeda muito mais fraca...isso trara vantagens a curto prazo, por tornar as nossas exportacoes mais competitivas(atencao, mais competitivas em relacao ao preco, e nao a qualidade, isso e outra historia)...
Mas, essa vantagem nao seria temporaria?A economia nao se adaptaria rapidamente a nova realidade?Ou seja, as nossas importacoes nao ficariam mais caras tambem, aumentando os custos de producao?Nao esquecer que nao somos um pais autosuficiente em quase nada, para podermos comprar apenas materia prima nacional...
Para servirmos a divida com uma moeda mais fraca que o euro, o governo decididamente que nao resistiria a por mais moeda em circulacao...isso inflacionaria e muito os precos, fazendo com que, para cobrir o aumento do custo de vida, os sindicatos e os trabalhadores exigissem, e bem, aumentos salariais que cobrissem esse aumento...ao fim disto tudo, sera que teriamos realmente vantagem em ter uma moeda mais fraca?


De Mais Um Economista a 4 de Julho de 2012 às 12:32
Caro Pedro,
Quero explorar esta questão mais a fundo num post mas queria só deixar um pequeno contra-argumento:
1) Portugal já teve o escudo, já tivemos essa moeda fraca, e que eu saiba, nunca foi um entrave; não vejo porque voltar a ter o escudo possa ser um problema por si só.
2) E sim, se voltassemos ao escudo voltariamos a ter uma política monetária interna e, obviamente, voltariamos a ter a possibilidade de errar internamente na execução dessa politica. Mas, sinceramente, acho que não podemos ter medo de voltar a ter politica monetária porque o governo a poderá usar erradamente.
3) O que não falta no mundo são economias pequenas com a sua própria moeda. E dúvido que alguma delas esteja em pior situação que as economias pequenas que aderiram ao euro.


De Pedro Leao a 4 de Julho de 2012 às 16:27
Atencao, caro Mais um Economista...eu concordo consigo...
So acho que a desvalorizacao cambial, a desvalorizacao interna (por palavras menos tecnicas, baixar salarios) e qualquer politica que vise aumentar exportacoes e diminuir importacoes sao coisas (nem consigo encontrar uma palavra melhor) que me deixam...sem resposta....senao vejamos:

1-Desvalorizacao Cambial: nunca o dolar esteve tao desvalorizado (artificialmente) do que hoje...isso tem beneficiado a economia Americana?
2-Desvalorizacao Interna: diminuicao de salarios, corte de subsidios de ferias e Natal.Em vez de qualidade, de marketing, de vendas, procuramos a mao de obra barata como a resposta aos nossos problemas.
3-Exportacoes/Importacoes: Nao entendo porque e necessario dizer a um empresario que exportar e bom...mesmo em periodos de pujanca economica, exportar e bom...Importar menos:Se for porque produzimos com melhor qualidade, apoio.Se for porque o Estado impoe limites a livre entrada de productos importados, nao sei onde isso pode ser positivo...


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