Quarta-feira, 6 de Junho de 2012

Muito se fala hoje em dia sobre os juros da dívida pública. Toda a gente sabe que foram esses ditos juros que levaram a Grécia, a Irlanda e Portugal a pedir ajuda financeira. E agora toda a gente sabe que o problema são os ditos juros da Espanha e Itália.

Mas outra coisa também é certa, até 2008 nunca se tinha ouvido falar destes juros, e, se calhar, aí é que temos um grave problema. Ora para quem não sabe ou não se lembra, abaixo está um gráfico com a evolução das taxas de juro das obrigações da dívida pública a 10 anos desde 1993 para os PIIGS e a Alemanha.

A primeira coisa que se calhar para alguns é novidade são os primeiros anos do gráfico. Reparem como os juros na década de 90 eram tão ou mais elevados do que são actualmente. A título de exemplo, os juros da dívida Alemã chegaram a atingir os 7,5% em 1995 - um valor que hoje é considerado insustentável e que está acima dos valores que obrigaram a Grécia, a Irlanda e Portugal a pedir ajuda financeira, e também acima dos actuais juros de Espanha e Itália.

Bom, mas o que é que aconteceu no fim do milénio passado que levou os investidores a reverem brutalmente em baixa os juros de países como Portugal e até a equiparar o risco desses países com o da Alemanha?

Toda a gente sabe, foi criado o euro. E apesar do euro só ter entrado em circulação em 2002, não nos podemos esquecer que foi um processo que começou em 92 com a assinatura do Tratado de Maastricht. 

O problema é que a criação do euro não justificava esta convergência total ao nível do risco país. Se com a criação do euro países como Portugal eliminaram da sua dívida o risco cambial, simultaneamente ganharam outro risco - o risco de falência. Mas esse risco de falência foi ignorado durante mais de 10 anos, e países como Portugal viram as suas dívidas externas aumentar drasticamente, como era de esperar. E o pior é que quando os investidores se aperceberam da situação que eles próprios criaram, estávamos a meio da crise mais severa desde a Grande Depressão, e as consequências estão à vista de todos.

O gráfico abaixo ajuda a tornar mais evidente evolução do risco da dívida pública Portuguesa. As duas linhas mostram a diferença entre as taxas de juros das obrigações a 10 anos entre Portugal e os EUA e entre Portugal e a Alemanha. Note-se que entre 98 e 2007 os juros de Portugal foram, em média, apenas 0.2 pontos percentuais superiores aos da Alemanha (4,5% contra 4,3%) - agora, como toda a gente sabe, a diferença são mais de 10 pp. E perante os EUA, entre 98 e 2000 e entre 2004 e 2007, a dívida Portuguesa pagou mesmo um juro mais baixo do que a dívida da maior economia mundial - e sim, não me enganei, mesmo no recente ano de 2007,  os juros das obrigações a dez anos foram em média de 4,4% em Portugal e de 4,6% nos EUA.

 

 


publicado por Mais Um Economista às 18:59 | link do post | comentar

4 comentários:
De Miguel Lopes a 8 de Junho de 2012 às 14:43
Análise muito interessante mas não percebi uma coisa. Está a falar de juro efectivo de obrigações ou de juros de mercado secundário? São coisas muito distintas. Só consigo imaginar que esteja a falar do mercado secundário porque Portugal não emite dívida a 10 anos há vários meses.


De Mais Um Economista a 8 de Junho de 2012 às 15:37
Caro Miguel,
Sim, são os juros do mercado secundário. Dados aqui: http://www.ecb.int/stats/money/long/html/index.en.html


De Manuel a 8 de Junho de 2012 às 11:14
Gostei deste trabalho.
Poderia comentar por favor sobre a solução da criação de uma segunda moeda paralela para Portugal.
Obrigado.


De escudo-cplp a 8 de Junho de 2012 às 22:57
O que entende por 2ª Moeda. Uma divisa nacional? Acho difícil manter 2 divisas diferentes. A única opção é criar uma divisa nacional e manter o curso legal do Euro, mas a 2ª divisa teria de se tornar na medida de conta da vida económica em Portugal. Depois há as moedas regionais. Ai sim teriam grande interesse para Portugal pois seriam uma forma de meter um imposto adicional aos produtos importados e às empresas internacionais. Uma moeda regional é uma subdivisão da moeda de conta oficial, neste caso o euro. Há muitos modelos de moedas regionais. Há dois tipos rigorosamente diferentes: Tipo A as que têm por base uma reserva real de 105% da moeda de curso legal, e Tipo B as que são emitidos sobre a promessa de horas de trabalho ou bens e serviços produzidos. As mais correntes e com mais sucesso são as de tipo A, e funcionam grosso modo da seguinte maneira. Aliciante + troca de 1 por 1 e retroca com prejuízo. A aliciante é de natureza cultural ou financeira. As pessoas sentem-se na obrigação de trocar euros por euros de Lisboa por uma questão moral ou ideológica ou porque a taxa de câmbio é algo do género 1€ = 1,10 €Lx. Se um comerciante quiser trocar de volta €lx por € a taxa leva um desconto tipo 1€lx = 0.90€ a diferença é geralmente doada a uma instituição de projectos regionais. Outra forma possível é a desvalorização da moeda em termos constantes de 5% ao mês obrigando aos seus proprietários a ter de a fazer circular de forma intensa. Tipo uma nota de 1€lx emitida a 1jan2012 a 1fev2012 vale 0.95€lx. Depois existem os elos de troca a tal moeda tipo B, ela é especialmente indicada em zonas muito degradadas economicamente onde falte o emprego e não haja grandes perspectivas de gerar riqueza. As pessoas trocam horas de trabalho mas de forma monetarizada sendo que 1 Talento = 1 hora de trabalho. Podem-se trocar € por Talentos Lx mas não Talentos Lx por € a não ser a pessoa que tenha trocado € por Talentos Lx. Isso permite criar riqueza e ao mesmo tempo não ter necessidade de manter uma reserva a 100% de moeda de curso legal. As pessoas trocam serviços entre si a 100% ou por bens numa % que é correspondente ao serviço incluido no preço de um bem. Tomar um café custaria 0.25€ e 0.25Tl-Lx total 0.50€.


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