Quinta-feira, 28 de Junho de 2012
Num post recente sobre o Reino Unido (Reino Unido - recessão ou depressão?) disse que não seria possível fazer uma análise da mesma natureza para Portugal - ou seja, comparar a crise actual com as crises do passado. E é verdade que não podemos fazer uma comparação tão aprofundado como a que o NIESR fez para o Reino Unido porque não temos dados para antes de 1960 e que só temos dados anuais até 1995.
Mas, arriscando um pouco, aqui fica a análise possível. Abaixo está um gráfico com a evolução do PIB de Portgal nas cinco recessões que ocorreram desde 1960. No gráfico, o ano 0 é o pico que antecedeu a respectiva recessão (portanto marca o início da recessão). Resumindo, as linhas do gráfico mostram a variação do PIB face ao pico anterior, ou seja, face ao ano 0. Por exemplo: em 1976 (ano +2 da recta vermelha) o PIB estava cerca de 3% abaixo do valor de 1974.

 

 Portugal - Recessões e recuperações desde 1960

 
Ora, sem saber ao certo o que se passou na economia portuguesa antes de 1960, arriscaria dizer que estamos a atravessar a pior crise de sempre no nosso país. E diria mais: estamos a atravessar uma depressão profunda - talvez a primeira da nossa história.
Reparem que segundo as previsões do FMI, apenas em 2017 estaremos de novo ao nível do que estávamos em 2007, no início da crise - são 10 anos. E não nos podemos esquecer que mesmo em 2017 estaremos ainda muito abaixo duma tendência de crescimento histórica - relembrem Portugal vs. Argentina II.
Não há comparação possível com as recessões que atravessámos nos últimos 50 anos. Em três delas a economia superou o pico anterior à recessão em menos de 2 anos. Mesmo após 1974, a economia demorou menos de 3 anos a recuperar.
Outra prova de que estamos numa severa depressão são os níveis de desemprego. Nem no conturbado período do final dos anos 70, principio dos anos 80 tal tinha acontecido. Mesmo nesse período a taxa de desemprego apenas superou ligeiramente os 9% (em 1985), hoje caminhamos para uma taxa de desemprego na ordem dos 16% no final deste ano.
 
Portanto estamos numa depressão, depressão essa que podia ter sido evitada. Mas se é verdade que nada há fazer em relação ao passado, o futuro está nas nossas mãos (deles). A economia portuguesa não tem de seguir este caminho, não temos de esperar mais 5 anos para estarmos economicamente em 2007. Não teremos de nos lembrar para sempre deste período como "A Nossa Grande Depressão"!
E, a meu ver, temos duas soluções: 
1) +++ rápida, ++ possível e + arriscada → saída do euro
2) - - - rápida, - - possível e potencialmente insuficiente  → convergência para uns Estados Unidos da Europa
 


publicado por Mais Um Economista às 16:37 | link do post | comentar

2 comentários:
De Francisco a 3 de Julho de 2012 às 09:38
As pessoas que propõem uma saída do Euro, nunca falam sobre a falência imediata dos bancos e do caos completo que se geraria na economia. Mas se querem ser coerentes e corajosas digam a verdade: que a saída do euro irá implicar uma perda do poder de compra de 30% ou mais, e que para evitar esse caos seria melhor aceitarem um corte médio salarial de 30%, ficando no euro.


De Mais Um Economista a 5 de Julho de 2012 às 16:00
Caro Franscisco,
1) Não há razão para temer uma falência imediata dos bancos e um caos completo. Sugiro-lhe que leia sobre o que aconteceu na Islândia. Muito resumidamente: decidiram desde o principio não aceitar a receita do FMI - à base de austeridade - deixaram desvalorizar a sua moeda brutalmente, declararam default às obrigações dos seus bancos com o exterior enquanto garantiram todos os depósitos nacionais. Não há ninguém que não reconheça que foi um sucesso. Eu não considero que Portugal tenha que seguir o que a Islândia fez nomeadamente do que se refere ao total default das obrigações com o exterior, talvez apenas fosse necessário um default parcial da dívida pública e reestruturação das restantes dívidas que não fossem redenominadas para escudos.
2) Quando diz que a saída do euro implicaria uma perda do poder de compra de 30%, comparando a situação com um corte salarial de 30%, está a confundir os conceitos de desvalorização interna e externa. (No post FAQ.Economia I falo sobre os dois conceitos). O que está a ser tentado actualmente é mesmo o corte salarial de 30% ficando no euro. Isso é a desvalorização interna de que se fala. O problema é que os salários vão demorar muito tempo a cair 30%; vão demorar anos ou décadas segundo os especialistas. Isto porque os salários não são totalmente flexíveis , nomeadamente, porque é muito difícil, senão impossível, diminuir salários nominais (ou seja, o valor pago pela empresa ao trabalhador). Portanto só se atingirá uma diminuição salarial através de um muito pequeno ou inexistente aumento dos salários nominais que resulta numa diminuição pouco significativa dos salários reais (pelo efeito da inflação). Ora, mais uma vez, isto demora muito tempo, tempo que não temos. Portanto a solução da desvalorização externa, ou seja, cambial, é bem mais atractiva por ser mais rápida, mas não só. Ao contrário do que o caro Francisco afirma, mesmo que a nossa nova moeda desvalorize 30%, o nosso poder de compra não diminui 30%. Sugiro ler o relatório que venceu o Wolfson Economics Prize (veja o meu post de hoje) que têm um capitulo sobre os impactos da desvalorização. (E eu também falo um pouco sobre isto no post : Portugal vs. Argentina IV).

Em suma, não só a desvalorização cambial é mais rápida como incute menos perda de poder de compra.


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