Quarta-feira, 04.07.12

Excelente artigo académico do conhecido economista Paul De Grauwe em co-autoria com Yuemei Ji. Os autores testam a hipótese de que os mercados de obrigações da dívida pública dos países da zona euro são mais frágeis e mais susceptíveis a self-fulfilling liquidity crises que os de países que emitem dívida pública na sua própria moeda. Os resultados são os esperados e de acordo com o que eu tenho defendido - Portugal e os demais sofrem de "negative self-fulfilling market sentiments" que agravaram a subida dos juros em especial desde finais de 2010.

Self-Fulfilling Crises in the Eurozone: An Empirical Test by Paul De Grauwe, Yuemei Ji

 

PS: As self-fulfilling liquidity crises referidas resultam do facto de países como Portugal não emitirem dívida na sua própria moeda, ou seja, não poderem garantir totalmente o pagamento dessa dívida porque, no limite, ao contrário dos países como o Reino Unido ou os EUA, não podem imprimir dinheiro para a pagar. Assim, os investidores ao temerem o default de um país como Portugal, exigem taxas de juro mais altas, e isso por si só torna default mais provável (daí o self-fulfilling) e pode gerar, como gerou em Portugal, graves problemas de liquidez.

 



publicado por Mais Um Economista às 17:17 | link do post | comentar

Em resposta a alguns comentários recentes, aqui vai um primeiro post.

Não foram os défices públicos que nos trouxeram até esta crise. Pelo contrário, os elevados défices e o crescimento das dívidas públicas no mundo todo foram consequência da crise. 

Para quem não concorda basta olhar para os casos como a Espanha ou a Irlanda que tinham as contas públicas mais do que em ordem. E mesmo Portugal tinha, em 2007, uma dívida pública de apenas 68% (apenas mais 3 pp. que a Alemanha).

Ora, em consequência da crise, isso sim, e uma vez que a primeira resposta, ao nível global, foi uma resposta no sentido correcto - aumento da despesa para reanimar a economia - aí sim os défices foram significativos, como tinham de ser. O problema veio pouco depois, quando os políticos das principais economias do mundo acharam que a crise era um problema já ultrapassado. Isto, aliado a uma preocupação crescente e infundada com as dívidas públicas levou os governos a cortarem cedo demais os apoios à economia e a recuperação esfumou-se. (Vejam este post com a história das conclusões das reuniões do G20 desde o inicio da crise

E sim, a preocupação com as dívidas públicas era e é infundada - senão recorde-se que os Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, apesar de terem défices e dívidas públicas bem mais elevadas que em 2007, têm hoje as taxas de juro a níveis nunca vistos de tão baixos que são. E apesar dos países do Sul da Europa terem visto os seus juros aumentar não podemos confundir as coisas. Os juros de Portugal e dos demais aumentam porque os mercado perceberam há muito tempo que o euro, assim como ele é hoje, não tem futuro. Portanto, no caso de um breakup do euro todos sabemos o que aconteceria.

Nomeadamente, ao nível das taxas de cambio, países como Portugal sofreriam fortes desvalorizações contra fortes valorizações em países como a Alemanha, e podíamos mesmo ter um default parcial das dívidas de países como Portugal. É isso que os mercado temem e daí, nos últimos anos, as taxas de juro terem divergido tanto entre países como Portugal e países como a Alemanha. O que está em causa não é o tamanho exagerado do governos em Portugal ou na Grécia (que só por acaso é tão grande como na Alemanha). O que está em causa é Portugal como economia. Economia essa que dentro da zona euro actual não tem futuro e, como sabemos, a dívida externa de Portugal, tanto pública como privada, paga-se com o que a economia produz.

 



publicado por Mais Um Economista às 10:05 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 28.06.12

Richard Layard (London School of Economics) e Paul Krugman criaram um manifesto para expor o essencial da forma como os policy makers têm interpretado erradamente a natureza desta crise, confundido as causas com efeitos, e respondido de forma a tornar a situação ainda pior. O manifesto está disponível online para ser assinado por economistas e não só: http://www.manifestoforeconomicsense.org/

 

A Manifesto for Economic Sense

 

More than four years after the financial crisis began, the world’s major advanced economies remain deeply depressed, in a scene all too reminiscent of the 1930s. And the reason is simple: we are relying on the same ideas that governed policy in the 1930s. These ideas, long since disproved, involve profound errors both about the causes of the crisis, its nature, and the appropriate response.

These errors have taken deep root in public consciousness and provide the public support for the excessive austerity of current fiscal policies in many countries. So the time is ripe for a Manifesto in which mainstream economists offer the public a more evidence-based analysis of our problems.

  • The causes.Many policy makers insist that the crisis was caused by irresponsible public borrowing. With very few exceptions - other than Greece - this is false. Instead, the conditions for crisis were created by excessive private sector borrowing and lending, including by over-leveraged banks. The collapse of this bubble led to massive falls in output and thus in tax revenue. So the large government deficits we see today are a consequence of the crisis, not its cause.
  • The nature of the crisis.When real estate bubbles on both sides of the Atlantic burst, many parts of the private sector slashed spending in an attempt to pay down past debts. This was a rational response on the part of individuals, but - just like the similar response of debtors in the 1930s - it has proved collectively self-defeating, because one person’s spending is another person’s income. The result of the spending collapse has been an economic depression that has worsened the public debt.
  • The appropriate response.  At a time when the private sector is engaged in a collective effort to spend less, public policy should act as a stabilizing force, attempting to sustain spending. At the very least we should not be making things worse by big cuts in government spending or big increases in tax rates on ordinary people. Unfortunately, that’s exactly what many governments are now doing.
  • The big mistake. After responding well in the first, acute phase of the economic crisis, conventional policy wisdom took a wrong turn - focusing on government deficits, which are mainly the result of a crisis-induced plunge in revenue, and arguing that the public sector should attempt to reduce its debts in tandem with the private sector. As a result, instead of playing a stabilizing role, fiscal policy has ended up reinforcing the dampening effects of private-sector spending cuts.

In the face of a less severe shock, monetary policy could take up the slack. But with interest rates close to zero, monetary policy - while it should do all

 

 



publicado por Mais Um Economista às 18:27 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Num post recente sobre o Reino Unido (Reino Unido - recessão ou depressão?) disse que não seria possível fazer uma análise da mesma natureza para Portugal - ou seja, comparar a crise actual com as crises do passado. E é verdade que não podemos fazer uma comparação tão aprofundado como a que o NIESR fez para o Reino Unido porque não temos dados para antes de 1960 e que só temos dados anuais até 1995.
Mas, arriscando um pouco, aqui fica a análise possível. Abaixo está um gráfico com a evolução do PIB de Portgal nas cinco recessões que ocorreram desde 1960. No gráfico, o ano 0 é o pico que antecedeu a respectiva recessão (portanto marca o início da recessão). Resumindo, as linhas do gráfico mostram a variação do PIB face ao pico anterior, ou seja, face ao ano 0. Por exemplo: em 1976 (ano +2 da recta vermelha) o PIB estava cerca de 3% abaixo do valor de 1974.

 

 Portugal - Recessões e recuperações desde 1960

 
Ora, sem saber ao certo o que se passou na economia portuguesa antes de 1960, arriscaria dizer que estamos a atravessar a pior crise de sempre no nosso país. E diria mais: estamos a atravessar uma depressão profunda - talvez a primeira da nossa história.
Reparem que segundo as previsões do FMI, apenas em 2017 estaremos de novo ao nível do que estávamos em 2007, no início da crise - são 10 anos. E não nos podemos esquecer que mesmo em 2017 estaremos ainda muito abaixo duma tendência de crescimento histórica - relembrem Portugal vs. Argentina II.
Não há comparação possível com as recessões que atravessámos nos últimos 50 anos. Em três delas a economia superou o pico anterior à recessão em menos de 2 anos. Mesmo após 1974, a economia demorou menos de 3 anos a recuperar.
Outra prova de que estamos numa severa depressão são os níveis de desemprego. Nem no conturbado período do final dos anos 70, principio dos anos 80 tal tinha acontecido. Mesmo nesse período a taxa de desemprego apenas superou ligeiramente os 9% (em 1985), hoje caminhamos para uma taxa de desemprego na ordem dos 16% no final deste ano.
 
Portanto estamos numa depressão, depressão essa que podia ter sido evitada. Mas se é verdade que nada há fazer em relação ao passado, o futuro está nas nossas mãos (deles). A economia portuguesa não tem de seguir este caminho, não temos de esperar mais 5 anos para estarmos economicamente em 2007. Não teremos de nos lembrar para sempre deste período como "A Nossa Grande Depressão"!
E, a meu ver, temos duas soluções: 
1) +++ rápida, ++ possível e + arriscada → saída do euro
2) - - - rápida, - - possível e potencialmente insuficiente  → convergência para uns Estados Unidos da Europa
 


publicado por Mais Um Economista às 16:37 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 26.06.12

Tenho defendido e tentado provar que, face à situação actual, a melhor e mais provável solução para a crise do euro seria a saída, o mais rápido possível, dos países periféricos - no limite acredito que a própria existência do euro deixaria de fazer sentido.

No entanto deixei sempre claro que esta não é a única solução. Eu próprio não estou certo que seja a melhor solução de todas, do que estou certo é que a melhor solução das aparentemente possíveis e claramente melhor do que a que tem estado em cima da mesa - austeridade, desvalorização interna, etc.

Nomeadamente, não assumi como aparentemente possível a hipótese de uma convergência política e económica da Europa para algo como uns Estados Unidos da Europa (EUE). Apesar disso, deixei sempre uma ressalva no que respeita a esta solução que considero ser a única que pode "substituir" a do fim do euro.

Mas se por um lado, os governantes europeus parece não quererem desistir da moeda única, por outro, ainda não deram indicações válidas de que a queiram completar politicamente e economicamente, antes pelo contrário.

Proibir os governos de terem défice elevados ou criar mecanismos para emprestar dinheiro aos países em dificuldades a troco de austeridade não é a integração de que estamos a falar quando se fala em completar a zona euro, não é suficiente e os acontecimentos recentes são prova disso mesmo. O mundo inteiro já percebeu isso - senão veja-se a reacção imediata ao anuncio do empréstimo a Espanha: juros a subir para máximos históricos.

Então e será que uma verdadeira convergência para uns Estados Unidos da Europa é possível?

Harman Van Rompuy (Presidente do Conselho Europeu) publicou hoje um relatório de 7 páginas algo surpreendente - Towards a genuine economic and monetary union. O relatório foi preparado em cooperação com Durão Barroso, Jean-Claude Juncker e Mario Draghi, e aborda a possibilidade de convergência para uns Estados Unidos da Europa de uma forma simples mas bastante linear.

Ora um problema é que os alemães odeiam esta hipótese - ou pelo menos parece. E até às eleições na Alemanha em Outubro de 2013 pouco deverá mudar - o problema é que isso é daqui a mais de 1 ano o que pode ser tarde (mesmo muito tarde) - e ninguém sabe se Merkel não vence mesmo as eleições. E mesmo outros países como a Holanda, Itália, Espanha ou França (países do euro grandes e/ou ricos) não sei até que ponto estarão dispostos a dar este passo. A questão da soberania seria também não só muito importante para os políticos como para as próprias populações.

Temos, portanto, os organismos europeus de um lado e os governantes do outro? Parece que sim; e o poder ainda está do lado dos governantes...

 

PS: Merkel, provavelmente em resposta ao relatório de Rompuy, terá dito hoje numa reunião dos partidos do governo alemão que, enquanto for viva, a Europa jamais terá a sua "dívida partilhda" (portanto nada de eurobonds ou algo ainda mais integrado).

 



publicado por Mais Um Economista às 13:07 | link do post | comentar

Segunda-feira, 25.06.12

E como nunca é demais, Martin Wolf descreve hoje no seu blog o que Espanha fez mal (ou não). Mais uma vez é a famosa teoria dos países do sul irresponsáveis a ser desacreditada com factos -  lembram-se do meu post Quem é Quem?. Para Wolf "Spain made only one big mistake: joining the euro".

What was Spain supposed to have done? by Martin Wolf @ Martin Wolf's Exchange

 



publicado por Mais Um Economista às 14:41 | link do post | comentar

Adicionei uns links novos ao blog (barra do lado direito). De destacar a secção Juros da Dívida Pública onde têm links para o site da bloomberg e onde se pode acompanhar a evolução das taxas de juro ao minuto (ou quase). Adicionei também links para os mercados de acções mais importantes da Europa e dos EUA.

Estes mercados de acções e de dívida pública ajudam a acompanhar o que se passa e a prever o que se pode vir a passar.

 



publicado por Mais Um Economista às 12:20 | link do post | comentar

Quarta-feira, 20.06.12

"Os povos da zona euro estão como os prisioneiros de Colditz, encarcerados numa fortaleza monetária com flexibilidade de granito." A referência a Colditz não é casual - é um castelo onde os alemães mantiveram os prisioneiros de guerra considerados "incorrigíveis" durante a Segunda Guerra Mundial. Hoje não são prisioneiros de guerra mas sim povos do sul irresponsáveis.

The eurozone's people are like prisoners in Colditz, Simon Jenkins @ The Guardian

 

Série de excertos de uma entrevista com Paul Krugman que serão publicados durante a semana.

Primeiro parte: Economist Paul Krugman on Germany's 'Whips and Scourges' @ PBS NEWSHOUR

 



publicado por Mais Um Economista às 13:10 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 19.06.12

Moedas paralelas e outras uniões monetárias

Algo se tem falado sobre a possibilidade de ser criada uma moeda paralela para a Grécia ou Portugal, ou mesmo separar o euro em dois, um para os países do sul e outro para os do norte. Existem ainda outras sugestões menos comuns de integração monetária como por exemplo juntar Portugal com os países da CPLP ou uma união mediterrânea entre o sul da Europa e o Maghreb.

Devo dizer que não sou a favor de nenhuma destas.

Começando pelas hipóteses como o euro a duas velocidades, a união monetária mediterrânea ou entre os países de língua portuguesa.

Em primeiro lugar, não nos podemos esquecer que estamos a assistir a uma experiência monetária que se revela cada vez mais como um falhanço. E não vejo que condições diferentes (e melhores) teriam tanto um euro a duas velocidades, e menos uma união monetária mediterrânea ou de língua portuguesa. Os pilares para o eficaz funcionamento de uma união monetária seriam mais uma vez muito frágeis. Nomeadamente: 1) insuficientes trocas comerciais entre os países da união; 2) ciclos económicos desalinhados; 3) fraca mobilidade dos trabalhadores; etc...

Penso que mesmo a solução mais falada, a do euro a duas velocidades, é muito pouco atrativa. Portugal, Espanha, Itália, Grécia e os demais países da dita periferia não teriam benefícios suficientes para continuarem a abdicar da sua política monetária em troca de partilharem a mesma moeda.

Quanto à possibilidade da criação de uma moeda paralela para países em dificuldades (para já fala-se do GEURO), penso que seria uma chamada second-best solution quando comparada com a saída total do euro. A ideia desta moeda paralela permitiria a necessária desvalorização cambial mas um ponto essencial é saber se a soberania sobre a politica monetária permaneceria ou não do lado do BCE. A trazer alguma estabilidade quando comparada com a saída directa do euro, sinceramente, só vejo esta solução a fazer algum sentido se for aplicado durante um período de transição até à entrada total da nova (velha) moeda.

 

Mais FAQ.Economia - Deixem comentários com o que gostariam de ver discutido.

 



publicado por Mais Um Economista às 12:49 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 18.06.12

A Grécia é uma vítima; não pode ser culpada pela crise que enfrentamos. Eu sei que nos têm tentado convencer do contrário mas a verdade está à vista de todos. A Grécia e os demais (Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, Chipre, ...) são vítimas, não são culpados.

Greece as Victim Paul Krugman @ NYTimes

 

E uma visão menos económica e mais política do fracasso que foi a criação do euro, duma União Europeia incompleta, cujos líderes tardam em completar e que pode mesmo acabar por colapsar.

A União Europeia seria uma excelente ideia Daniel Oliveira @ Expresso

 



publicado por Mais Um Economista às 14:23 | link do post | comentar


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