Terça-feira, 31.07.12

Tenho tido pouco tempo para escrever aqui no BOOM or DOOM mas li uma notícia que me deixou intrigado e aproveito para partilhar.

Germans 'better off without euro' - poll @ The Telegraph

Isto deixa-me apreensivo. Se os alemães acham que estariam melhor sem o euro então o euro é/era do interesse de quem?

O problema é mesmo esse. Está tudo ao contrário - o euro foi bom para os alemães ressuscitarem a sua economia que estava estagnada nos anos 90 e agora nem os alemães querem o euro. Das duas uma, ou estão mal informados ou acham que já usufruíram do euro o suficiente; eu aposto na primeira hipótese.

E o outro lado do problema está nos países do sul - esses sim deveriam estar a favor da saída do euro mas não estão (pelo menos não maioritariamente ou não assumidamente). Verdade que as alternativas políticas aos pró-euro podem não ser fáceis de aceitar pela maioria da população mas o que está em causa são as políticas dos próprios partidos pró-euro. A economia portuguesa, nomeadamente, está a atravessar a crise mais severa da sua história. As políticas que estão a ser seguidas insistem em ignorar os ensinamentos da história e, assim, vai continuar a fazer-se história.

  



publicado por Mais Um Economista às 10:50 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 16.07.12

A Holanda juntou-se hoje ao grupo de países do euro (juntamente com a Alemanha, a Áustria e a França) que ultimamente tem usufruído de yields negativas na emissão de dívida pública.

O que isto quer dizer? Quer dizer que as taxas de juro da dívida pública destes países é inferior à inflação, ou seja, os investidores estão literalmente a pagar a estes países para lhes emprestar dinheiro.

Uma primeira observação, menos económica, leva-me a tocar num ponto relacionado com algo que me parece extremamente importante para o potencial funcionamento da zona euro, e que tem sido muito discutido - a criação das eurobonds, ou seja, a zona euro passar a emitir dívida pública como um todo.

A Alemanha opõem-se claramente às eurobonds e entretanto continuamos a assistir aos sucessivos bailouts dos países periféricos. Esses lbailouts, por sua vez, não são mais do que empréstimos que os restantes países do euro fazem ao país resgatado, sendo a maior parte do empréstimo coberto pela Alemanha, seguida da França, e por ai fora mediante a dimensão da economia. Portanto, como o dinheiro não surge do nada (até podia surgir se o BCE pudesse imprimir moeda, mas não pode), e não surge das eurobonds, os restantes países do euro têm de arranjar o dinheiro para emprestar ao resgatado.

Ora, colocando a questão da forma mais simples possível: a Alemanha vai ao mercado pedir dinheiro emprestado e fá-lo a juros inferiores a 2%; depois empresta o dinheiro a Portugal que recebe um bailout e paga juros superiores a 4% (fora as comissões pagas ao FMI, CE, etc.). 

Enfim, não acredito que a Alemanha se oponha às eurobonds por ganhar +/-2% com os bailouts aos países do sul mas que são +/-2% de lucro são. (Estas minhas não descrenças não são de hoje, nem de ontem.)

 

Quanto às implicações mais significativas e mais económicas das históricamente baixas taxas de juro, por um lado, os investidores estarão tão receosos que preferem pagar a estes países para lhes "guardarem o dinheiro" - um sinal claro de que a crise está a ser bem alimentada. Por outro, a única forma desta estratégia se tornar rentável para os investidores involve um ou uma combinação destes três acontecimentos:

1) as taxas de juro da dívida pública destes países descem ainda mais e os investidores conseguem vender a sua dívida a um valor mais alto;

2) a inflação desce ou temos mesmo desinflação, e portanto a diferença entre a inflação e os baixos juros da dívida pública destes países torna-se positiva, logo rendimentos para os investidores;

3) alguns países do sul saem do euro, o euro valoriza (ou o euro acaba, a Alemanha volta ao marco, o marco valoriza) e os investidores que estão fora do euro (ou da Alemanha) obtêm rendimentos pela valorização do euro (ou do marco).

As duas primeiras hipóteses sinalizariam que os investidores acreditam na manutenção do rumo actual dos acontecimentos - e consequente agravamento da situação económica. Já a terceira pode demonstrar que os investidores acreditam que o rumo terá de ser alterado e que tal estará para breve.

 



publicado por Mais Um Economista às 11:54 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quinta-feira, 05.07.12

Foi hoje anunciado o vencedor do Wolfson Economics Prize. Para quem não sabe, este prémio foi criado pelo Lord Simon Wolfson e desafiou economistas a apresentar as suas propostas para um plano de contingência para o fim do euro.

O vencedor foi Roger Bootle, em representação da Capital Economics, que apresentou o seguinte trabalho: Leaving the euro: A pratical guide. (O estudo tem 156 páginas pelo que quem quiser um resumo siga este link).

Eu ainda não li o relatório portanto não posso entrar em detalhes mas, pelo que posso ver no resumo, algumas das ideias do estudo são semelhantes ao que tenho defendido aqui no blog.

De referir que este prémio atribuiu ao vencedor nada mais nada menos do que 250.000£.

 



publicado por Mais Um Economista às 12:05 | link do post | comentar

Quarta-feira, 04.07.12

Excelente artigo académico do conhecido economista Paul De Grauwe em co-autoria com Yuemei Ji. Os autores testam a hipótese de que os mercados de obrigações da dívida pública dos países da zona euro são mais frágeis e mais susceptíveis a self-fulfilling liquidity crises que os de países que emitem dívida pública na sua própria moeda. Os resultados são os esperados e de acordo com o que eu tenho defendido - Portugal e os demais sofrem de "negative self-fulfilling market sentiments" que agravaram a subida dos juros em especial desde finais de 2010.

Self-Fulfilling Crises in the Eurozone: An Empirical Test by Paul De Grauwe, Yuemei Ji

 

PS: As self-fulfilling liquidity crises referidas resultam do facto de países como Portugal não emitirem dívida na sua própria moeda, ou seja, não poderem garantir totalmente o pagamento dessa dívida porque, no limite, ao contrário dos países como o Reino Unido ou os EUA, não podem imprimir dinheiro para a pagar. Assim, os investidores ao temerem o default de um país como Portugal, exigem taxas de juro mais altas, e isso por si só torna default mais provável (daí o self-fulfilling) e pode gerar, como gerou em Portugal, graves problemas de liquidez.

 



publicado por Mais Um Economista às 17:17 | link do post | comentar

Em resposta a alguns comentários recentes, aqui vai um primeiro post.

Não foram os défices públicos que nos trouxeram até esta crise. Pelo contrário, os elevados défices e o crescimento das dívidas públicas no mundo todo foram consequência da crise. 

Para quem não concorda basta olhar para os casos como a Espanha ou a Irlanda que tinham as contas públicas mais do que em ordem. E mesmo Portugal tinha, em 2007, uma dívida pública de apenas 68% (apenas mais 3 pp. que a Alemanha).

Ora, em consequência da crise, isso sim, e uma vez que a primeira resposta, ao nível global, foi uma resposta no sentido correcto - aumento da despesa para reanimar a economia - aí sim os défices foram significativos, como tinham de ser. O problema veio pouco depois, quando os políticos das principais economias do mundo acharam que a crise era um problema já ultrapassado. Isto, aliado a uma preocupação crescente e infundada com as dívidas públicas levou os governos a cortarem cedo demais os apoios à economia e a recuperação esfumou-se. (Vejam este post com a história das conclusões das reuniões do G20 desde o inicio da crise

E sim, a preocupação com as dívidas públicas era e é infundada - senão recorde-se que os Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, apesar de terem défices e dívidas públicas bem mais elevadas que em 2007, têm hoje as taxas de juro a níveis nunca vistos de tão baixos que são. E apesar dos países do Sul da Europa terem visto os seus juros aumentar não podemos confundir as coisas. Os juros de Portugal e dos demais aumentam porque os mercado perceberam há muito tempo que o euro, assim como ele é hoje, não tem futuro. Portanto, no caso de um breakup do euro todos sabemos o que aconteceria.

Nomeadamente, ao nível das taxas de cambio, países como Portugal sofreriam fortes desvalorizações contra fortes valorizações em países como a Alemanha, e podíamos mesmo ter um default parcial das dívidas de países como Portugal. É isso que os mercado temem e daí, nos últimos anos, as taxas de juro terem divergido tanto entre países como Portugal e países como a Alemanha. O que está em causa não é o tamanho exagerado do governos em Portugal ou na Grécia (que só por acaso é tão grande como na Alemanha). O que está em causa é Portugal como economia. Economia essa que dentro da zona euro actual não tem futuro e, como sabemos, a dívida externa de Portugal, tanto pública como privada, paga-se com o que a economia produz.

 



publicado por Mais Um Economista às 10:05 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 28.06.12
Num post recente sobre o Reino Unido (Reino Unido - recessão ou depressão?) disse que não seria possível fazer uma análise da mesma natureza para Portugal - ou seja, comparar a crise actual com as crises do passado. E é verdade que não podemos fazer uma comparação tão aprofundado como a que o NIESR fez para o Reino Unido porque não temos dados para antes de 1960 e que só temos dados anuais até 1995.
Mas, arriscando um pouco, aqui fica a análise possível. Abaixo está um gráfico com a evolução do PIB de Portgal nas cinco recessões que ocorreram desde 1960. No gráfico, o ano 0 é o pico que antecedeu a respectiva recessão (portanto marca o início da recessão). Resumindo, as linhas do gráfico mostram a variação do PIB face ao pico anterior, ou seja, face ao ano 0. Por exemplo: em 1976 (ano +2 da recta vermelha) o PIB estava cerca de 3% abaixo do valor de 1974.

 

 Portugal - Recessões e recuperações desde 1960

 
Ora, sem saber ao certo o que se passou na economia portuguesa antes de 1960, arriscaria dizer que estamos a atravessar a pior crise de sempre no nosso país. E diria mais: estamos a atravessar uma depressão profunda - talvez a primeira da nossa história.
Reparem que segundo as previsões do FMI, apenas em 2017 estaremos de novo ao nível do que estávamos em 2007, no início da crise - são 10 anos. E não nos podemos esquecer que mesmo em 2017 estaremos ainda muito abaixo duma tendência de crescimento histórica - relembrem Portugal vs. Argentina II.
Não há comparação possível com as recessões que atravessámos nos últimos 50 anos. Em três delas a economia superou o pico anterior à recessão em menos de 2 anos. Mesmo após 1974, a economia demorou menos de 3 anos a recuperar.
Outra prova de que estamos numa severa depressão são os níveis de desemprego. Nem no conturbado período do final dos anos 70, principio dos anos 80 tal tinha acontecido. Mesmo nesse período a taxa de desemprego apenas superou ligeiramente os 9% (em 1985), hoje caminhamos para uma taxa de desemprego na ordem dos 16% no final deste ano.
 
Portanto estamos numa depressão, depressão essa que podia ter sido evitada. Mas se é verdade que nada há fazer em relação ao passado, o futuro está nas nossas mãos (deles). A economia portuguesa não tem de seguir este caminho, não temos de esperar mais 5 anos para estarmos economicamente em 2007. Não teremos de nos lembrar para sempre deste período como "A Nossa Grande Depressão"!
E, a meu ver, temos duas soluções: 
1) +++ rápida, ++ possível e + arriscada → saída do euro
2) - - - rápida, - - possível e potencialmente insuficiente  → convergência para uns Estados Unidos da Europa
 


publicado por Mais Um Economista às 16:37 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 26.06.12

Tenho defendido e tentado provar que, face à situação actual, a melhor e mais provável solução para a crise do euro seria a saída, o mais rápido possível, dos países periféricos - no limite acredito que a própria existência do euro deixaria de fazer sentido.

No entanto deixei sempre claro que esta não é a única solução. Eu próprio não estou certo que seja a melhor solução de todas, do que estou certo é que a melhor solução das aparentemente possíveis e claramente melhor do que a que tem estado em cima da mesa - austeridade, desvalorização interna, etc.

Nomeadamente, não assumi como aparentemente possível a hipótese de uma convergência política e económica da Europa para algo como uns Estados Unidos da Europa (EUE). Apesar disso, deixei sempre uma ressalva no que respeita a esta solução que considero ser a única que pode "substituir" a do fim do euro.

Mas se por um lado, os governantes europeus parece não quererem desistir da moeda única, por outro, ainda não deram indicações válidas de que a queiram completar politicamente e economicamente, antes pelo contrário.

Proibir os governos de terem défice elevados ou criar mecanismos para emprestar dinheiro aos países em dificuldades a troco de austeridade não é a integração de que estamos a falar quando se fala em completar a zona euro, não é suficiente e os acontecimentos recentes são prova disso mesmo. O mundo inteiro já percebeu isso - senão veja-se a reacção imediata ao anuncio do empréstimo a Espanha: juros a subir para máximos históricos.

Então e será que uma verdadeira convergência para uns Estados Unidos da Europa é possível?

Harman Van Rompuy (Presidente do Conselho Europeu) publicou hoje um relatório de 7 páginas algo surpreendente - Towards a genuine economic and monetary union. O relatório foi preparado em cooperação com Durão Barroso, Jean-Claude Juncker e Mario Draghi, e aborda a possibilidade de convergência para uns Estados Unidos da Europa de uma forma simples mas bastante linear.

Ora um problema é que os alemães odeiam esta hipótese - ou pelo menos parece. E até às eleições na Alemanha em Outubro de 2013 pouco deverá mudar - o problema é que isso é daqui a mais de 1 ano o que pode ser tarde (mesmo muito tarde) - e ninguém sabe se Merkel não vence mesmo as eleições. E mesmo outros países como a Holanda, Itália, Espanha ou França (países do euro grandes e/ou ricos) não sei até que ponto estarão dispostos a dar este passo. A questão da soberania seria também não só muito importante para os políticos como para as próprias populações.

Temos, portanto, os organismos europeus de um lado e os governantes do outro? Parece que sim; e o poder ainda está do lado dos governantes...

 

PS: Merkel, provavelmente em resposta ao relatório de Rompuy, terá dito hoje numa reunião dos partidos do governo alemão que, enquanto for viva, a Europa jamais terá a sua "dívida partilhda" (portanto nada de eurobonds ou algo ainda mais integrado).

 



publicado por Mais Um Economista às 13:07 | link do post | comentar

Segunda-feira, 25.06.12

E como nunca é demais, Martin Wolf descreve hoje no seu blog o que Espanha fez mal (ou não). Mais uma vez é a famosa teoria dos países do sul irresponsáveis a ser desacreditada com factos -  lembram-se do meu post Quem é Quem?. Para Wolf "Spain made only one big mistake: joining the euro".

What was Spain supposed to have done? by Martin Wolf @ Martin Wolf's Exchange

 



publicado por Mais Um Economista às 14:41 | link do post | comentar

Quarta-feira, 20.06.12

"Os povos da zona euro estão como os prisioneiros de Colditz, encarcerados numa fortaleza monetária com flexibilidade de granito." A referência a Colditz não é casual - é um castelo onde os alemães mantiveram os prisioneiros de guerra considerados "incorrigíveis" durante a Segunda Guerra Mundial. Hoje não são prisioneiros de guerra mas sim povos do sul irresponsáveis.

The eurozone's people are like prisoners in Colditz, Simon Jenkins @ The Guardian

 

Série de excertos de uma entrevista com Paul Krugman que serão publicados durante a semana.

Primeiro parte: Economist Paul Krugman on Germany's 'Whips and Scourges' @ PBS NEWSHOUR

 



publicado por Mais Um Economista às 13:10 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 19.06.12

Moedas paralelas e outras uniões monetárias

Algo se tem falado sobre a possibilidade de ser criada uma moeda paralela para a Grécia ou Portugal, ou mesmo separar o euro em dois, um para os países do sul e outro para os do norte. Existem ainda outras sugestões menos comuns de integração monetária como por exemplo juntar Portugal com os países da CPLP ou uma união mediterrânea entre o sul da Europa e o Maghreb.

Devo dizer que não sou a favor de nenhuma destas.

Começando pelas hipóteses como o euro a duas velocidades, a união monetária mediterrânea ou entre os países de língua portuguesa.

Em primeiro lugar, não nos podemos esquecer que estamos a assistir a uma experiência monetária que se revela cada vez mais como um falhanço. E não vejo que condições diferentes (e melhores) teriam tanto um euro a duas velocidades, e menos uma união monetária mediterrânea ou de língua portuguesa. Os pilares para o eficaz funcionamento de uma união monetária seriam mais uma vez muito frágeis. Nomeadamente: 1) insuficientes trocas comerciais entre os países da união; 2) ciclos económicos desalinhados; 3) fraca mobilidade dos trabalhadores; etc...

Penso que mesmo a solução mais falada, a do euro a duas velocidades, é muito pouco atrativa. Portugal, Espanha, Itália, Grécia e os demais países da dita periferia não teriam benefícios suficientes para continuarem a abdicar da sua política monetária em troca de partilharem a mesma moeda.

Quanto à possibilidade da criação de uma moeda paralela para países em dificuldades (para já fala-se do GEURO), penso que seria uma chamada second-best solution quando comparada com a saída total do euro. A ideia desta moeda paralela permitiria a necessária desvalorização cambial mas um ponto essencial é saber se a soberania sobre a politica monetária permaneceria ou não do lado do BCE. A trazer alguma estabilidade quando comparada com a saída directa do euro, sinceramente, só vejo esta solução a fazer algum sentido se for aplicado durante um período de transição até à entrada total da nova (velha) moeda.

 

Mais FAQ.Economia - Deixem comentários com o que gostariam de ver discutido.

 



publicado por Mais Um Economista às 12:49 | link do post | comentar | ver comentários (2)


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